No Brasil e no mundo, diretrizes sobre contracepção oral ainda não incorporaram as atuais evidências sobre estrogênios naturais
Por Achilles Cruz
Há mais de 60 anos, a pílula anticoncepcional revoluciona a vida das mulheres, garantindo autonomia reprodutiva e liberdade para planejar o futuro. Essa evolução continua nos dias de hoje, dando origem a medicamentos cada vez mais seguros e eficazes ao longo dessas seis décadas.
Mas é preciso reconhecer, por outro lado, que as diretrizes em torno das pílulas combinadas não acompanharam o ritmo da inovação científica. Normativas mundiais ainda igualam produtos que, na prática, são muito diferentes em termos de metabolismo e efeitos fisiológicos sobre o organismo, o que pode impactar diretamente sobre a segurança e tolerabilidade destes compostos.
Vejamos um exemplo prático: até o final dos anos 2000, todas as opções existentes no mercado brasileiro de contraceptivos orais combinados (COCs) eram produzidas com estrogênios sintéticos, geralmente modificados em laboratório para ter efeitos específicos, como maior absorção por via oral ou maior estabilidade.
Hoje, porém, a medicina já conta com COCs que utilizam estrogênios idênticos aos naturais – isto é, hormônios com a mesma estrutura molecular daqueles produzidos naturalmente pelo organismo humano. Para a maioria das mulheres, essa é uma versão “mais amigável” da pílula, pois os hormônios naturais têm impacto reduzido sobre o metabolismo, a coagulação sanguínea e a função hepática. Em resumo, são pílulas potencialmente mais seguras, com menor impacto no organismo e maior tolerabilidade em comparação às pílulas com estrogênio sintético.
Um painel apresentado por especialistas mundiais em anticoncepção no último Congresso Mundial de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO), realizado na Cidade do Cabo, na África do Sul, contribuiu para sedimentar esse consenso. Os especialistas presentes no evento abordaram as diferenças clínicas e farmacológicas entre as pílulas “convencionais”, que contêm o etinilestradiol e as pílulas à base de estrogênios naturais, como o estetrol, com destaque para seu baixo impacto hepático e efeitos reduzidos sobre o metabolismo lipídico e coagulação.
Essas e outras conclusões deram sustentação a um documento oficial (white paper) publicado após o evento, chamando a atenção para o fato de que, embora os estrogênios naturais já tenham se mostrado uma opção segura e eficaz na contracepção oral combinada, diretrizes atuais ainda não incorporam integralmente essas evidências. Tal defasagem pode limitar a oferta de alternativas que poderiam melhorar a experiência e a adesão das mulheres aos métodos contraceptivos.
À luz das crescentes evidências, será oportuno e plausível revisar marcos regulatórios, diretrizes e políticas de saúde, reconhecendo formalmente o avanço trazido com a incorporação dos estrogênios naturais nos contraceptivos orais combinados.
Profissionais de saúde desempenham papel central nesse processo. Cabe a nós incluir os estrogênios naturais no aconselhamento prévio da paciente, garantindo que cada mulher receba informação clara e fundamentada para tomar decisões conscientes sobre o método contraceptivo que lhe trará melhor qualidade de vida.
A evidência científica é inequívoca: anticoncepcionais com hormônios idênticos aos naturais representam hoje uma alternativa bastante apropriada para mulheres sem restrição ao estrogênio. Reconhecer esse dado é só o primeiro passo. O restante da jornada implica melhorar o acesso a esses medicamentos, garantindo às mulheres um cuidado contraceptivo mais seguro e fortalecendo sua autonomia, seu bem-estar e sua saúde reprodutiva.
Dr. Achilles Cruz é ginecologista e obstetra da Libbs Farmacêutico (CRM-SP 53579 | RQE- 55506)


