Saúde e bem-estar

Calor e suor aumentam casos de infecções na pele no verão, alerta dermatologista

Estudo aponta que 42,7% dos casos de micose ocorrem nos meses mais quentes; especialista explica riscos e os perigos da automedicação

O aumento das temperaturas e da umidade durante o verão cria o cenário ideal para o crescimento de infecções na pele. Calor intenso, suor excessivo, uso prolongado de roupas apertadas ou sintéticas e a permanência com roupas de banho molhadas favorecem a proliferação de fungos e bactérias. O resultado é o crescimento expressivo de casos de micose e infecções bacterianas nessa época do ano.

Um estudo publicado em 2024 no Jornal de Ciência Médica da Coreia do Sul analisou mais de 38 mil registros de infecções dermatológicas ao longo de dez anos e identificou que 42,7% dos episódios de micose ocorreram durante os meses mais quentes. O dado reforça o alerta especialmente em um período marcado por maior frequência a praias, piscinas, academias e vestiários compartilhados.

Segundo o dermatologista Gustavo Novaes, formado pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), o ambiente quente e úmido acelera a multiplicação de micro-organismos. “Fungos como os dermatófitos, a exemplo do Trichophyton rubrum, e leveduras como a Candida albicans prosperam nessas condições. Já bactérias como o Staphylococcus aureus encontram na pele suada e eventualmente lesionada uma oportunidade para colonização e infecção”, explica.

Micoses lideram os atendimentos dermatológicos no verão

Entre as infecções mais comuns no verão estão as micoses superficiais, que atingem principalmente pés, virilhas, tronco e áreas de dobra do corpo. O chamado pé de atleta (tínea pedis) é frequente em pessoas que utilizam calçados fechados por longos períodos ou circulam em ambientes úmidos, como piscinas e academias. A condição provoca coceira intensa, descamação e fissuras entre os dedos.

Outra ocorrência comum é o pano branco (pitiríase versicolor), que se manifesta por manchas claras ou acastanhadas no tronco e pescoço, que não bronzeiam e tendem a se multiplicar com o aumento da oleosidade e do suor. Já a micose da virilha (tínea cruris) costuma surgir em quem usa roupas apertadas ou pratica atividade física intensa, causando placas avermelhadas e prurido significativo.

A candidíase de dobras, conhecida como intertrigo candidiásico, também se destaca, especialmente em idosos e pacientes com diabetes, afetando regiões como axilas e áreas inframamárias, com vermelhidão intensa e lesões satélites.

Bactérias também encontram terreno fértil

Além das micoses, as infecções bacterianas na pele se tornam mais frequentes no calor. A foliculite, por exemplo, provoca pequenas erupções semelhantes a espinhas, geralmente em áreas de atrito como coxas e glúteos. O eritrasma aparece como manchas nas dobras corporais, enquanto o intertrigo bacteriano pode ser confundido com micose, mas costuma apresentar odor desagradável e secreção.

A semelhança entre as manifestações clínicas é justamente um dos fatores que aumentam o risco de automedicação inadequada.

Automedicação pode agravar infecções na pele

Ao perceber manchas, coceira, vermelhidão ou presença de secreção, a recomendação é procurar avaliação médica. Nem toda lesão que coça é micose, e o uso incorreto de pomadas pode transformar um quadro simples em uma infecção mais extensa.

Para Gustavo Novaes, o erro diagnóstico é o principal perigo. “Muitas infecções bacterianas são confundidas com micoses — e vice-versa. Quando um paciente usa antifúngico em uma infecção bacteriana, a doença não melhora, o quadro pode evoluir, pode haver mascaramento temporário da inflamação e o atraso terapêutico aumenta o risco de complicações”, alerta.

Ele também chama atenção para o uso indiscriminado de cremes combinados, que contêm antifúngico e corticoide. Em casos de micose, o corticoide pode alterar o aspecto da lesão, dificultar o diagnóstico e favorecer a disseminação, condição conhecida como “tínea incógnita”. Além disso, o uso inadequado de antibióticos tópicos contribui para resistência bacteriana, especialmente em infecções causadas por Staphylococcus aureus.

Infecção de pele não é apenas questão estética

Embora muitas pessoas tratem as micoses como um problema superficial, especialistas reforçam que infecção de pele é uma questão de saúde pública. A pele funciona como principal barreira imunológica do organismo. Quando essa proteção é rompida, micro-organismos podem penetrar em camadas mais profundas.

“Em pacientes com diabetes, imunossupressão ou doenças crônicas, o risco é ainda maior. Em casos raros, infecções cutâneas podem evoluir para quadros sistêmicos graves, como bacteremia ou fasceíte necrosante — situações potencialmente fatais”, explica o dermatologista.

Como prevenir infecções na pele no verão

A prevenção passa por medidas simples, mas fundamentais. Manter a pele seca, especialmente nas dobras e entre os dedos, é essencial. Após suor excessivo ou banho de mar e piscina, é importante trocar roupas úmidas e evitar permanecer por longos períodos com biquínis ou roupas suadas.

Dar preferência a tecidos leves, como algodão ou materiais tecnológicos que permitam ventilação, ajuda a reduzir a umidade corporal. Em locais públicos, o uso de chinelos em vestiários e chuveiros é recomendado, assim como evitar compartilhar toalhas, roupas íntimas, lâminas ou maquiagens. Pequenas lesões, como arranhões e escoriações, devem ser higienizadas adequadamente, e a hidratação da pele contribui para manter a barreira cutânea íntegra.

Sobre o especialista

Dr. Gustavo Novaes é dermatologista formado pela Universidade de São Paulo (USP), com residência médica em Dermatologia também pela USP. É membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e atua nas áreas de dermatologia clínica, estética e laser.

Instagram: @drgustavonovaes