*Por Francisco Le Voci
Vivemos em uma sociedade que valoriza cada vez mais os padrões estéticos e a aparência.
Nesse contexto, a relação com a própria imagem tem se tornado mais frágil, e o crescimento da procura por procedimentos estéticos nos últimos anos também evidencia a insatisfação de muitas pessoas com o próprio corpo, enquanto as redes sociais passam a desempenhar um papel relevante como gatilho para preocupações excessivas com a aparência.
A exposição constante nas plataformas digitais, a valorização de padrões estéticos muitas vezes idealizados e a comparação frequente com outras pessoas intensificam um sentimento que, para muitos, começa como uma simples insatisfação, mas pode evoluir para algo mais profundo.
Em alguns casos, essa percepção distorcida da própria aparência está associada à dismorfia corporal, condição relacionada ao Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), caracterizada por uma preocupação excessiva com supostos defeitos físicos e por uma visão distorcida da própria imagem.
É natural que as pessoas tenham inseguranças em relação ao próprio corpo. O problema surge quando o desconforto com a aparência passa a gerar frustração constante. Nesse momento, o espelho deixa de ser apenas um reflexo da realidade e passa a reproduzir uma imagem filtrada por críticas internas e por uma persistente sensação de inadequação. Aos poucos, esse processo pode começar a afetar o cotidiano, interferindo na vida social, no desempenho no trabalho ou nos estudos.
No contexto da cirurgia dermatológica, as redes sociais também se tornaram um fator de risco. Filtros e padrões muitas vezes irreais de beleza despertam nos pacientes o desejo por intervenções estéticas para alcançar resultados inalcançáveis, como a busca por uma simetria facial absoluta ou pela chamada “pele de vidro”, caracterizada por uma textura extremamente lisa e uniforme.

Em muitos casos, esses resultados são idealizados como um padrão estético perfeito, mas fogem da conduta ética e responsável que deve orientar a prática médica.
Por isso, é importante compreender que a insatisfação com a aparência não deve ser banalizada quando começa a interferir no bem-estar e na rotina. Quando a preocupação com um suposto defeito físico se torna persistente e passa a gerar sofrimento emocional, estamos diante de um sinal de alerta que merece atenção.
Nesse cenário, cabe aos especialistas reconhecerem e orientarem os pacientes sobre os limites entre o cuidado saudável com a aparência e uma preocupação excessiva. Procedimentos estéticos e tratamentos dermatológicos podem contribuir para o bem-estar quando realizados com orientação profissional e expectativas realistas.
No entanto, quando a busca por mudanças físicas nasce de uma percepção distorcida do próprio corpo, como ocorre nos casos de dismorfia corporal, a avaliação e o acompanhamento da saúde mental também se tornam fundamentais.
Em um momento em que a imagem ganhou protagonismo no cotidiano, é cada vez mais necessário refletir sobre até que ponto os procedimentos estéticos contribuem para além da vaidade.
*Francisco Le Voci é presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD).
