Pela primeira vez, o órgão internacional define parâmetros para prescrição, acompanhamento e uso seguro dos fármacos, que passam a integrar oficialmente o cuidado contínuo da doença.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou suas primeiras diretrizes específicas para o uso de medicamentos injetáveis, conhecidos como canetas emagrecedoras, no tratamento da obesidade. O documento afirma que esses fármacos fazem parte do cuidado de uma doença crônica, complexa e multifatorial, o que reforça a necessidade de acompanhamento de longo prazo.
Obesidade afeta mais de 1 bilhão de pessoas
De acordo com a OMS, 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade no mundo. No Brasil, o índice chega a 31% dos adultos, segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025. Com números crescentes e impacto direto em doenças como diabetes tipo 2, hipertensão e apneia do sono, a organização busca orientar sistemas de saúde sobre o uso adequado das novas medicações.
As recomendações da OMS apresentam critérios claros para o uso dos medicamentos e alertam sobre riscos associados ao uso inadequado. Entre os principais pontos, estão:
- Indicação para adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades;
- Uso combinado com mudanças no estilo de vida e acompanhamento profissional contínuo;
- Evidências de segurança e eficácia quando usados corretamente, com perda de peso sustentada e melhora de condições metabólicas;
- Risco de recuperação do peso após interrupção do tratamento, o que reforça a necessidade de manejo prolongado;
- Preocupação com desigualdades de acesso e com a automedicação;
- Reforço de que o objetivo do tratamento deve ser a saúde, não a estética.
Especialistas destacam impacto do documento
Para a médica nutróloga Andrea Pereira, cofundadora do Instituto Obesidade Brasil, as diretrizes representam um marco para o enfrentamento da doença. Segundo ela, o texto da OMS deixa claro que se trata de tratamento de uma doença crônica e não de uma intervenção estética, o que contribui para reduzir estigmas e orientar o uso responsável das medicações.
O cirurgião bariátrico Carlos Schiavon, presidente da instituição, ressalta que o documento reforça a integração entre diferentes abordagens. Ele afirma que não existe solução única e que, em alguns casos, o medicamento será suficiente. Em outros, servirá como complemento a estratégias como a cirurgia bariátrica. Para ele, individualização e seguimento clínico são fundamentais.
A psicóloga Andrea Levy, destaca o impacto dos fatores emocionais e sociais no tratamento. Ela lembra que a obesidade não é falta de força de vontade, mas uma condição influenciada por múltiplos determinantes. Sem atenção à saúde mental e ao comportamento, aponta, o tratamento tende a não se manter a longo prazo.
Doença crônica requer cuidado integrado
Ao publicar as diretrizes, a OMS reforça que o enfrentamento da obesidade exige ações coordenadas entre profissionais de saúde, gestores públicos e sistemas de atendimento. A inclusão dos medicamentos injetáveis nas estratégias terapêuticas representa um avanço, mas depende de acesso equitativo, acompanhamento especializado e visão multidisciplinar.
A organização espera que as recomendações sirvam de base para políticas de saúde que promovam o uso seguro dos fármacos, reduzam desigualdades e ampliem a compreensão sobre a obesidade como doença crônica e não como questão estética ou moral.


