Desinteresse por atividades, isolamento e alterações de memória não devem ser encarados como consequências naturais da idade
A tristeza nem sempre é o principal sinal de depressão na terceira idade. Em muitos casos, a doença aparece por meio de sintomas que familiares costumam associar ao envelhecimento, como desânimo, irritabilidade, isolamento social, queixas físicas, perda de interesse pelas atividades e até dificuldades de memória.
Segundo a psiquiatra Jéssica Müller de Faria, da Palliative Care, esse é um dos principais obstáculos para o cuidado da saúde mental dos idosos. “Muitas pessoas acreditam que é normal o idoso perder o interesse pelas atividades que antes gostava, ficar mais isolado ou apresentar desânimo constante. Esse é um equívoco que atrasa o diagnóstico”, afirma.
A médica explica que, nessa fase da vida, a depressão pode se manifestar de forma diferente. Nem sempre o idoso se apresenta triste ou choroso. Irritabilidade, ansiedade, cansaço, dores físicas sem causa aparente e alterações no sono ou no apetite também podem indicar a doença.
Outro ponto de atenção é a relação entre depressão e alterações cognitivas. Falhas de memória, dificuldade de concentração e problemas de atenção podem fazer parte do quadro depressivo e, em alguns casos, ser confundidos com demência, inclusive Alzheimer. Por isso, a avaliação médica é fundamental para identificar a causa dos sintomas e definir o tratamento adequado.
Entre os fatores que podem contribuir para a depressão na terceira idade estão luto, aposentadoria, redução da convivência social, perda de autonomia, doenças crônicas, dor persistente e isolamento social.
Para Daniele Chaves, diretora da Palliative Care, falar sobre saúde mental na terceira idade ajuda famílias e cuidadores a reconhecerem sinais que muitas vezes passam despercebidos. “Muitos idosos sofrem em silêncio porque acreditam que aquilo faz parte da idade. Quanto mais falarmos sobre o assunto, maiores são as chances de quebrar esse estigma e facilitar o acesso ao tratamento”, destaca.
Especialistas alertam que sinais persistentes por mais de duas semanas, especialmente quando acompanhados de isolamento, abandono de atividades habituais, alterações do sono ou do apetite e perda de interesse pela vida, devem motivar uma avaliação profissional.
A boa notícia, reforça a Dra. Jéssica, é que a depressão tem tratamento e a recuperação é possível em qualquer fase da vida.


