Senior Asian woman adjusting hearing aid while sitting in nursing home, short gray hair visible, hand touching ear, background showing blurred indoor communal area
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Surdez além do diagnóstico: diferentes formas de ouvir e comunicar

Libras, oralização, aparelhos auditivos, implante coclear e diferentes formas de comunicação fazem parte de uma realidade diversa. Especialistas defendem que reconhecer essa pluralidade é essencial para um cuidado mais inclusivo.

Falar sobre surdez é falar sobre diferentes histórias, identidades e formas de comunicação. Embora durante muito tempo a surdez tenha sido abordada principalmente a partir de uma perspectiva clínica, como uma condição que deveria ser corrigida ou compensada, hoje essa compreensão se amplia.

A pessoa surda não pode ser definida apenas por um diagnóstico, por um audiograma ou pela tecnologia que utiliza. Há pessoas que têm a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua, pessoas surdas oralizadas, usuários de aparelhos auditivos ou implante coclear, pessoas bilíngues e aquelas que transitam entre diferentes formas de comunicação.

Essa diversidade é o que o conceito de pluralidade surda ajuda a reconhecer: não existe uma única maneira de ser surdo.

Dimensão da perda auditiva no mundo

A perda auditiva está longe de ser uma condição rara. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo vivem atualmente com algum grau de perda auditiva, o equivalente a aproximadamente 20% da população global. Desse total, cerca de 430 milhões apresentam uma perda considerada incapacitante e necessitam de algum tipo de reabilitação.

E a tendência é de crescimento. As projeções da OMS indicam que, até 2050, quase 2,5 bilhões de pessoas poderão apresentar algum grau de perda auditiva. 

A questão atravessa todas as fases da vida. Crianças podem nascer com perda auditiva ou desenvolvê-la nos primeiros anos, enquanto fatores como exposição excessiva a ruídos, infecções, determinadas doenças e o próprio envelhecimento podem afetar a audição ao longo dos anos.

Outro dado chama atenção para as novas gerações: mais de 1 bilhão de jovens adultos estão sob risco de desenvolver perda auditiva permanente e evitável devido a práticas inseguras de exposição sonora.

Os números ajudam a dimensionar a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do acesso aos diferentes recursos de cuidado e reabilitação. Mas também revelam uma população extremamente diversa.

O diagnóstico é apenas o começo

Na infância, identificar precocemente uma perda auditiva é fundamental. Mas o diagnóstico não encerra a questão: ele dá início a uma série de decisões que terão impacto sobre o desenvolvimento e a vida da criança.

Nesse momento, a família precisa receber informações claras e equilibradas sobre as possibilidades existentes.

Isso inclui conhecer alternativas como Libras, língua oral e abordagens que combinam diferentes modalidades de comunicação, além das possibilidades de uso de tecnologias auditivas.

A chamada tomada de decisão compartilhada propõe justamente que essas escolhas não sejam impostas unilateralmente pelo profissional de saúde. A família deve participar ativamente do processo, compreender benefícios, limitações e incertezas e tomar decisões de acordo com suas necessidades, valores e realidade.

Nesse modelo, o profissional deixa de ser aquele que simplesmente determina um caminho e passa a atuar também como alguém que informa, orienta e acompanha.

Libras e tecnologia auditiva não precisam estar em lados opostos

Durante muitos anos, parte do debate sobre a surdez foi construída como se fosse necessário escolher entre dois caminhos: de um lado, a língua de sinais e a identidade surda; de outro, a tecnologia auditiva, a reabilitação e o desenvolvimento da linguagem oral.

Essa oposição, porém, não representa a complexidade da experiência das pessoas surdas.

Uma criança pode usar aparelho auditivo ou implante coclear e também aprender Libras. Uma pessoa pode se comunicar predominantemente pela língua oral e, ainda assim, precisar de legendas e outros recursos de acessibilidade. Outra pode ter na Libras sua principal língua e construir sua identidade a partir da cultura surda.

Mais importante do que enquadrar essas pessoas em categorias rígidas, é reconhecer que existem diferentes trajetórias possíveis e, principalmente, que elas podem mudar ao longo da vida.

Na primeira infância, linguagem não pode esperar

Independentemente da modalidade de comunicação escolhida, existe um ponto fundamental: toda criança precisa ter acesso à linguagem desde os primeiros meses e anos de vida.

A ausência de acesso pleno a uma língua, seja ela oral, sinalizada ou ambas, pode comprometer o desenvolvimento linguístico.

Por isso, diagnóstico e intervenção precoces são tão importantes. A estimulação da linguagem não deveria ficar condicionada apenas à conclusão de processos para adaptação de aparelhos auditivos ou realização de implante coclear.

Se a família optar pela Libras, por exemplo, o contato com a língua pode começar precocemente. Da mesma forma, quando existe indicação e escolha pelo desenvolvimento da audição e da linguagem oral, o acesso adequado à tecnologia e à terapia precisa ocorrer no momento oportuno.

O objetivo central é evitar que a criança atravesse um período decisivo do desenvolvimento sem acesso consistente à comunicação.

As escolhas, as características clínicas, as intervenções adotadas e as trajetórias percorridas após a identificação da perda auditiva influenciam a forma como a pessoa surda se comunica, seja ela sinalizante ou oralizada.

Quem são os surdos sinalizadores e os surdos oralizados?

Os surdos sinalizadores são pessoas surdas que utilizam uma língua de sinais como uma de suas principais formas de comunicação e interação. As línguas de sinais não são universais. Assim como ocorre com as línguas orais, diferentes países e comunidades possuem suas próprias línguas de sinais, constituídas historicamente e dotadas de estruturas linguísticas próprias. No Brasil, a Libras é reconhecida pela Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, como meio legal de comunicação e expressão. Entretanto, a Libras não é a única língua de sinais utilizada no país. O Brasil também apresenta uma diversidade de Línguas Indígenas de Sinais (LIS), utilizadas por diferentes povos indígenas. Essa diversidade evidencia que as línguas de sinais são línguas naturais, constituídas e utilizadas por diferentes comunidades linguísticas, com características, estruturas e usos próprios, reforçando seu caráter linguístico, histórico, social e cultural. 

Já, os surdos oralizados são pessoas com algum grau de perda auditiva que utilizam a língua oral como uma de suas principais formas de comunicação. Elas falam, geralmente dominam o português escrito e podem recorrer à leitura labial e a diferentes estratégias para compreender a fala. Algumas utilizam aparelhos auditivos ou implantes cocleares para ampliar o acesso aos sons; outras podem não utilizar nenhuma tecnologia auditiva.

No caso dos surdos oralizados, a comunicação pode envolver uma combinação de audição residual, aparelhos auditivos, implantes cocleares, leitura labial, pistas visuais e língua portuguesa falada e escrita. Isso significa também que uma pessoa pode falar com fluência e, ainda assim, ter uma perda auditiva importante.

Compreender tais características ajuda a compreender que a surdez reúne experiências muito diferentes.

Acessibilidade real

Essa diversidade no universo da surdez interfere diretamente nas necessidades de acessibilidade. Para uma pessoa surda sinalizante, por exemplo, a presença do profissional tradutor e intérprete de Libras/Língua Portuguesa pode ser fundamental em uma consulta, palestra, aula ou serviço público. Já para uma pessoa surda oralizada que não domina Libras, esse mesmo intérprete pode não resolver a barreira de comunicação — nesse caso, legendas e transcrição em tempo real podem ser mais adequadas.

Mesmo uma pessoa que utiliza bem sua tecnologia auditiva pode encontrar dificuldades em uma sala muito ruidosa, em uma palestra sem legenda ou em uma conversa com várias pessoas falando ao mesmo tempo.

Da mesma forma, uma pessoa que fala Libras depende da presença de recursos adequados de comunicação em diferentes espaços.

Por isso, falar em acessibilidade para pessoas surdas exige reconhecer diferentes necessidades, em vez de partir da ideia de que existe uma única forma de comunicação para toda a população surda.

Acessibilidade envolve um conjunto de soluções: intérpretes de Libras, legendas, transcrição de fala em tempo real, ambientes com acústica adequada, sistemas de microfone remoto e outras tecnologias assistivas.

Mas existe uma dimensão que não depende apenas de equipamentos.

A acessibilidade também é atitudinal.

Significa compreender que não deve ser responsabilidade exclusiva da pessoa surda adaptar-se permanentemente aos ambientes ouvintes. Escolas, empresas, serviços de saúde, espaços culturais e instituições públicas também precisam estar preparados para diferentes formas de comunicação.

Não existe um único resultado de sucesso

Talvez uma das mudanças mais importantes trazidas pela discussão sobre pluralidade surda esteja justamente na maneira de definir o que é um tratamento bem-sucedido.

Durante muito tempo, o sucesso esteve fortemente associado à capacidade de a pessoa surda se aproximar do padrão ouvinte.

Uma perspectiva plural propõe outra pergunta: o cuidado oferecido permite que essa pessoa desenvolva linguagem, autonomia, participação social e qualidade de vida respeitando sua forma de existir e se comunicar?

A pluralidade surda reconhece que as pessoas Surdas apresentam diferentes identidades, formas de comunicação, trajetórias linguísticas, experiências e necessidades. Essas experiências são diversas e podem se transformar ao longo da vida, de acordo com os contextos sociais, educacionais, familiares e linguísticos vivenciados. 

Da mesma forma, as pessoas surdocegas podem utilizar diferentes formas e estratégias de comunicação, como Libras em campo visual reduzido, Libras tátil, alfabeto manual tátil, Braille, escrita na palma da mão, fala e outros recursos. Também podem fazer uso de dispositivos eletrônicos auxiliares à audição, como aparelhos auditivos e implantes cocleares, que podem contribuir para suas possibilidades de percepção e comunicação. Essas diferentes possibilidades podem ser utilizadas de maneira isolada ou combinada, conforme as características, experiências, necessidades e preferências comunicativas de cada pessoa. Nesse sentido, trajetórias oralizadas, sinalizadas e bilíngues podem ser legítimas, considerando as singularidades de cada pessoa surda e os diferentes percursos construídos ao longo de sua vida. 

Tecnologia auditiva e identidade surda não precisam ser adversárias. Libras e língua oral também não precisam ocupar lados opostos.

O desafio para profissionais, famílias, serviços de saúde e sociedade é oferecer condições para que cada pessoa possa construir seu próprio caminho, com informação, acesso, acompanhamento e respeito.

Mais do que uma frase, ele aponta para uma mudança de perspectiva: políticas públicas, estratégias de acessibilidade e decisões em saúde precisam ser construídas não apenas para as pessoas surdas, mas com elas.

Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa com Deficiência (PNAISPD).

CASELLI, N. K.; PYERS, J. E.; LIEBERMAN, A. M. Deaf children of hearing parents have age-level vocabulary growth when exposed to American Sign Language by 6 months of age. The Journal of Pediatrics, v. 232, p. 229-236, 2021.

HALL, W. C. What you don’t know can hurt you: The risk of language deprivation by impairing sign language development in deaf children. Maternal and Child Health Journal, v. 21, n. 5, p. 961-965, 2017.

MOELLER, M. P. et al. Family-centered early intervention for children who are deaf or hard of hearing: Principles and guidelines. Journal of Early Hearing Detection and Intervention, v. 3, n. 1, p. 25-36, 2013.

MOURA, M. C. de; BEGROW, D. D. V.; CHAVES, A. D. D.; AZONI, C. A. S. Fonoaudiologia, língua de sinais e bilinguismo para surdos. CoDAS [Internet], 2021;33(1):e20200248.

MOURA, M. C. de et al. Pluralidade Surda e Fonoaudiologia Bilíngue. In: Tratado de Fonoaudiologia. Cap. 60, p. 432-437.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). World Report on Hearing. Geneva: WHO, 2021.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS n. 2.776, de 18 de dezembro de 2014.
Aprova as Diretrizes de Atenção da Triagem Auditiva Neonatal.

Comitês da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa):

Comitê de Reabilitação Auditiva:
Coordenadora: Mariane Perin Silva Comerlatto – CRFa 4-9618-3
Vice-coord.: Dra Mariana Cardoso Guedes – CRFa 2-10393

Comitê de Língua de Sinais e Bilinguismo para Surdos
Coord.: Dra Adriana Di Donato Chaves – CRFa 4-10408
Vice-coord.: Dra Cássia Sígolo – CRFa 2-13423

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