Dados do Vigitel Brasil, divulgados pelo Ministério da Saúde em 2025, mostram aumento do uso de dispositivos eletrônicos para fumar entre adultos de 18 a 24 anos
O Brasil reduziu a prevalência de fumantes adultos nos últimos anos, mas enfrenta um novo desafio relacionado ao consumo de nicotina: o crescimento do uso de cigarros eletrônicos entre jovens. Dados do Vigitel Brasil, divulgados pelo Ministério da Saúde em 2025, mostram que o percentual de fumantes adultos caiu de 15,7% em 2006 para 11,5% em 2024. Apesar da queda no tabagismo convencional, o levantamento aponta aumento do uso de dispositivos eletrônicos para fumar, especialmente entre pessoas de 18 a 24 anos.
Segundo o Vigitel, essa faixa etária concentra a maior prevalência de uso atual de cigarros eletrônicos no país, com índice de 10,1%. O estudo também identificou que 24,8% dos jovens adultos entre 18 e 24 anos já experimentaram esses dispositivos, popularmente conhecidos como pods ou vapes.
Cigarro eletrônico avança mesmo com venda proibida
No Brasil, a comercialização, importação e propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar são proibidas. Mesmo assim, os produtos continuam circulando no comércio informal e nas redes sociais, muitas vezes associados a sabores adocicados, design tecnológico e à falsa ideia de menor risco à saúde.
Para a pneumologista e docente da Afya Unigranrio Barra da Tijuca, Hedi Marinho, essa percepção contribui para a popularização dos cigarros eletrônicos entre adolescentes e jovens adultos. “Os cigarros eletrônicos contêm nicotina em concentrações elevadas e diversas substâncias químicas inaladas diretamente para o pulmão. O fato de não haver combustão não significa ausência de risco respiratório e cardiovascular”, explica.
Segundo a médica, o uso frequente desses dispositivos pode provocar inflamações pulmonares, dependência química e sintomas respiratórios persistentes. “O pulmão jovem ainda está em desenvolvimento funcional pleno até o início da vida adulta. A exposição contínua a aerossóis, aromatizantes químicos e nicotina pode causar danos importantes a médio e longo prazo”, afirma.
Mulheres também registram aumento no uso de cigarros eletrônicos
Dados preliminares divulgados pelo Ministério da Saúde em maio de 2025 indicaram aumento de 25% no número de fumantes nas capitais brasileiras. O levantamento também apontou crescimento de 36% no índice de mulheres fumantes.
Outro dado que chamou atenção foi o avanço do uso de cigarros eletrônicos entre mulheres. O percentual passou de 1,4% em 2023 para 2,6% em 2024, superando o índice registrado entre homens pela primeira vez.
Início precoce aumenta risco de dependência de nicotina
O III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), divulgado em 2024, estimou que 15,5% da população brasileira com 14 anos ou mais utiliza nicotina por meio de cigarro convencional, cigarro eletrônico ou uso combinado. O estudo também apontou que 3,7% utilizam apenas dispositivos eletrônicos e 1,9% fazem uso dual, quando há consumo simultâneo de cigarro tradicional e eletrônico.
O levantamento identificou ainda início precoce do consumo. Cerca de 26,1% dos fumantes relataram ter começado antes dos 14 anos. Entre adolescentes que experimentaram cigarros eletrônicos, 76,3% mantiveram o uso posteriormente. Além disso, 80,7% afirmaram considerar fácil o acesso aos dispositivos, apesar da proibição da venda no país.
De acordo com Hedi Marinho, a combinação entre facilidade de acesso, influência das redes sociais e desinformação contribui diretamente para o aumento do consumo entre adolescentes e jovens adultos. “Existe uma falsa percepção de segurança associada aos sabores, ao cheiro menos intenso e ao aspecto tecnológico dos dispositivos. Isso favorece a experimentação e a manutenção do uso, principalmente entre jovens que talvez nunca tivessem contato com o cigarro convencional”, diz.
Alta concentração de nicotina preocupa especialistas
A pneumologista também alerta para a alta concentração de nicotina presente em alguns dispositivos descartáveis, que pode ultrapassar a quantidade encontrada em maços inteiros de cigarro tradicional. Segundo ela, muitos usuários não percebem o quanto estão consumindo ao longo do dia, já que o dispositivo permite tragadas contínuas, sem a mesma percepção de limite do cigarro convencional.
Na avaliação da docente da Afya, o crescimento do consumo entre jovens acende um alerta para possíveis impactos futuros sobre doenças respiratórias crônicas e dependência química em faixas etárias cada vez mais precoces.
A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia afirmou, em nota divulgada em 2025, que os dados nacionais indicam uma “persistência da epidemia da nicotina” no Brasil, agora impulsionada por novos produtos e estratégias de mercado.


