Sistema CARL já é utilizado em hospitais europeus e busca ampliar as chances de sobrevivência e recuperação neurológica após uma parada cardíaca
Uma tecnologia de reanimação capaz de restabelecer a circulação sanguínea e, ao mesmo tempo, reduzir danos ao cérebro e a outros órgãos vitais pode começar a ser implantada no Brasil. O sistema CARL, desenvolvido pela empresa alemã Resuscitec, já é utilizado em hospitais de 13 países europeus e está em fase inicial de negociação com instituições públicas, universidades e representantes do Sistema Único de Saúde (SUS).
A possível chegada da tecnologia ocorre em um cenário de alta mortalidade por doenças cardiovasculares. Cerca de 400 mil brasileiros morrem anualmente em decorrência dessas enfermidades, que permanecem entre as principais causas de óbito no país.
O problema também tem atingido pacientes mais jovens. Dados do SUS indicam que as internações por infarto entre pessoas com menos de 40 anos dobraram nos últimos 16 anos, mostrando que os riscos cardiovasculares não estão restritos à população idosa.
Parada cardíaca pode causar danos mesmo após o coração voltar a bater
Durante uma parada cardíaca, a interrupção da circulação impede que oxigênio e nutrientes cheguem adequadamente ao cérebro, aos rins e a outros órgãos. Mesmo quando os batimentos cardíacos são restabelecidos, o período sem fluxo sanguíneo pode provocar lesões graves, comprometendo a sobrevivência e a recuperação do paciente.
Por isso, o sucesso da reanimação não depende apenas de fazer o coração voltar a bater. Também é necessário recuperar a circulação de maneira controlada e diminuir os danos provocados pela falta de oxigênio.
É nesse processo que atua o CARL, sigla em inglês para reanimação controlada e automatizada do corpo inteiro.
Como funciona o sistema CARL
O CARL é uma plataforma móvel de reanimação extracorpórea. Durante o procedimento, o sangue do paciente é retirado do organismo, passa por ajustes fisiológicos e retorna ao corpo de forma controlada.
O sistema permite que a equipe médica monitore e ajuste parâmetros como pressão, temperatura, oxigenação e composição do sangue durante a retomada da circulação. A proposta é reduzir os efeitos da falta de oxigênio e proteger o cérebro e os demais órgãos durante a reanimação.

Segundo a Resuscitec, mais de 750 pacientes já foram tratados com a tecnologia. “Durante décadas, o sucesso da reanimação foi medido exclusivamente pelo retorno dos batimentos cardíacos. Hoje sabemos que isso não é suficiente. O grande desafio é trazer o paciente de volta à vida, preservando seu cérebro, seus órgãos e sua autonomia. É exatamente isso que buscamos com o CARL”, afirma o professor Georg Trummer, diretor médico da Resuscitec.
Tecnologia é utilizada em 13 países europeus
O sistema já está presente em hospitais de países como Alemanha, França, Espanha, Suécia, Bélgica e Ucrânia. A tecnologia busca complementar os métodos tradicionais de reanimação, especialmente nos casos mais graves ou prolongados de parada cardíaca.
A expectativa da empresa é que o Brasil esteja entre os primeiros países da América Latina a adotar a plataforma.
As conversas iniciais para a chegada do CARL ao país envolvem hospitais públicos, universidades e o SUS. A implantação ainda dependerá de avaliações técnicas, regulatórias, clínicas e econômicas.
Para Natália Seipel, presidente da Resuscitec no Brasil e responsável pelas negociações, a tecnologia pode contribuir para mudar o prognóstico de pacientes que sofrem uma parada cardíaca.
“O Brasil ainda perde muitas vidas devido às doenças cardiovasculares e às sequelas da parada cardíaca. Nosso objetivo é oferecer aos médicos uma tecnologia capaz de melhorar as taxas de sobrevivência e, acima de tudo, permitir que mais pacientes retornem às suas famílias com boa qualidade de vida”, afirma.
Além de ampliar as chances de sobrevivência, a proposta do sistema é permitir que os pacientes se recuperem com menos sequelas neurológicas e maior autonomia após a reanimação.


